{"id":3411,"date":"2026-09-06T20:45:34","date_gmt":"2026-09-06T19:45:34","guid":{"rendered":"https:\/\/pcdd-global.org\/tribuna-atlantica\/"},"modified":"2026-09-06T20:45:34","modified_gmt":"2026-09-06T19:45:34","slug":"tribuna-atlantica","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/pcdd-global.org\/pt\/tribuna-atlantica\/","title":{"rendered":"Tribuna Atl\u00e1ntica"},"content":{"rendered":"<h2>Pensamento contempor\u00e2neo<\/h2>\n<p>A Tribuna Atl\u00e1ntica \u00e9 uma publica\u00e7\u00e3o internacional de pensamento contempor\u00e2neo. Seu nome expressa um modo de se situar diante da realidade, mais do que uma especializa\u00e7\u00e3o tem\u00e1tica. Interessa-nos o tempo em que vivemos, mas n\u00e3o apenas aquilo que acaba de acontecer. A atualidade oferece fatos, decis\u00f5es, conflitos, inova\u00e7\u00f5es e mudan\u00e7as pol\u00edticas; compreend\u00ea-los exige relacion\u00e1-los com processos iniciados antes e cujas consequ\u00eancias, muitas vezes, ainda desconhecemos.<\/p>\n<p>Pensar o presente carrega a dificuldade de fazer-se por dentro. N\u00e3o conhecemos o desfecho dos processos que estamos vivendo, nem podemos desprender-nos por completo das categorias, experi\u00eancias e preocupa\u00e7\u00f5es de nossa pr\u00f3pria \u00e9poca. Ortega y Gasset formulou essa rela\u00e7\u00e3o entre vida e circunst\u00e2ncia em <em>Meditaciones del Quijote<\/em>, publicada em 1914. Sua reflex\u00e3o sobre o eu e a circunst\u00e2ncia tornou-se quase um aforismo, embora o que aqui interesse seja algo mais amplo: pensamos a partir de uma situa\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica concreta, condicionados por ela e, ao mesmo tempo, capazes de submet\u00ea-la a exame. A circunst\u00e2ncia n\u00e3o fornece por si s\u00f3 uma explica\u00e7\u00e3o do mundo, mas determina o lugar de onde come\u00e7amos a interrog\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Hoje essa circunst\u00e2ncia apresenta uma complexidade particular. Muitas das categorias com que organizamos a realidade continuam sendo necess\u00e1rias, ainda que os fen\u00f4menos que pretendemos estudar atravessem seus limites com crescente facilidade. O Estado mant\u00e9m sua centralidade pol\u00edtica e jur\u00eddica, enquanto empresas, capitais, servi\u00e7os digitais, cadeias de suprimentos e decis\u00f5es econ\u00f4micas desenvolvem boa parte de sua atividade em espa\u00e7os que extravasam uma \u00fanica jurisdi\u00e7\u00e3o. As fronteiras continuam produzindo consequ\u00eancias muito reais, mas j\u00e1 n\u00e3o delimitam sozinhas os processos capazes de transformar uma sociedade.<\/p>\n<p>O Direito h\u00e1 d\u00e9cadas se defronta com esse problema. Quando Philip C. Jessup proferiu em Yale suas <em>Storrs Lectures<\/em>, em 1956, publicadas naquele mesmo ano como <em>Transnational Law<\/em>, partiu de situa\u00e7\u00f5es cuja compreens\u00e3o obrigava a cruzar divis\u00f5es tradicionais do conhecimento jur\u00eddico. Direito interno, Direito internacional p\u00fablico e Direito internacional privado podiam concorrer sobre uma mesma rela\u00e7\u00e3o. Jessup escrevia em outro contexto e antes da revolu\u00e7\u00e3o digital, mas apontou uma dificuldade que desde ent\u00e3o se tornou muito mais vis\u00edvel: algumas realidades se compreendem pior quando o m\u00e9todo obriga a fragment\u00e1-las antes de estud\u00e1-las.<\/p>\n<p>A mesma dificuldade aparece hoje fora do Direito. Uma inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica pode modificar rela\u00e7\u00f5es de trabalho, estruturas empresariais, formas de cria\u00e7\u00e3o e crit\u00e9rios de responsabilidade. Uma decis\u00e3o comercial adquire relev\u00e2ncia estrat\u00e9gica quando afeta mat\u00e9rias-primas, cadeias de suprimentos ou autonomia industrial. Uma pol\u00edtica energ\u00e9tica produz efeitos econ\u00f4micos, sociais e diplom\u00e1ticos ao mesmo tempo. A mobilidade humana admite leituras demogr\u00e1ficas, jur\u00eddicas, econ\u00f4micas, culturais e pol\u00edticas que se complementam sem se confundir. A especializa\u00e7\u00e3o continua sendo imprescind\u00edvel; simplesmente, a realidade n\u00e3o \u00e9 obrigada a respeitar nossas especialidades.<\/p>\n<p>A amplitude tem\u00e1tica da Tribuna Atl\u00e1ntica decorre dessa evid\u00eancia. Direito, economia, geopol\u00edtica, tecnologia, empresa, ci\u00eancia, hist\u00f3ria, cultura, filosofia ou institui\u00e7\u00f5es aparecem em suas p\u00e1ginas quando alguma dessas perspectivas permite compreender melhor a quest\u00e3o examinada. As disciplinas conservam sua identidade, mas os problemas atravessam com frequ\u00eancia v\u00e1rias delas.<\/p>\n<p>Fernand Braudel abordou essa dupla quest\u00e3o, a rela\u00e7\u00e3o entre disciplinas e a necessidade de trabalhar com escalas temporais distintas, em \u201cHistoire et Sciences sociales: La longue dur\u00e9e\u201d, publicado em <em>Annales<\/em> em 1958. Seu nome ficou especialmente associado \u00e0 longa dura\u00e7\u00e3o, embora aquele texto contivesse tamb\u00e9m uma reflex\u00e3o sobre o contato inevit\u00e1vel entre as ci\u00eancias sociais quando seus objetos de estudo as conduziam a terrenos comuns. Braudel advertia, ademais, sobre os limites de uma hist\u00f3ria dominada pelo acontecimento imediato. A observa\u00e7\u00e3o conserva interesse em uma cultura informativa capaz de registrar um fato quase no mesmo instante em que ele ocorre, mas n\u00e3o necessariamente de compreender com igual rapidez o seu alcance.<\/p>\n<p>Uma senten\u00e7a que parece decisiva no dia em que \u00e9 proferida pode acabar sendo uma pe\u00e7a menor de uma evolu\u00e7\u00e3o jurisprudencial muito mais ampla. Uma elei\u00e7\u00e3o interpretada como ruptura pode revelar, com o tempo, continuidades que ent\u00e3o mal se percebiam. Uma tecnologia apresentada como in\u00e9dita pode reabrir perguntas sobre liberdade, poder, responsabilidade ou condi\u00e7\u00e3o humana que contam com uma tradi\u00e7\u00e3o intelectual de s\u00e9culos. Pensar contemporaneamente exige reconhecer aquilo que nossa \u00e9poca tem verdadeiramente de novo sem transformar o presente em um ponto zero da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>O adjetivo Atl\u00e1ntica responde \u00e0 mesma vontade de observar rela\u00e7\u00f5es, mais do que compartimentos isolados. O Atl\u00e2ntico foi durante s\u00e9culos um dos grandes espa\u00e7os de comunica\u00e7\u00e3o entre a Europa, a Am\u00e9rica e a \u00c1frica. Por suas rotas circularam pessoas, mercadorias, capitais, conhecimentos, institui\u00e7\u00f5es, l\u00ednguas, religi\u00f5es, modelos jur\u00eddicos e ideias pol\u00edticas. Dessas rela\u00e7\u00f5es surgiram sociedades novas e transforma\u00e7\u00f5es decisivas, mas tamb\u00e9m sistemas de domina\u00e7\u00e3o, colonialismo, escravid\u00e3o, guerras e desigualdades cujas consequ\u00eancias fazem parte da mesma hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>A historiografia acabou convertendo essa realidade em um campo de estudo pr\u00f3prio. Bernard Bailyn sistematizou boa parte dessa perspectiva em <em>Atlantic History: Concept and Contours<\/em>, publicado em 2005. David Armitage havia proposto poucos anos antes, em \u201cThree Concepts of Atlantic History\u201d, uma distin\u00e7\u00e3o entre formas diversas de estudar o espa\u00e7o atl\u00e2ntico, conforme se atendesse ao conjunto de suas circula\u00e7\u00f5es, \u00e0s conex\u00f5es entre suas partes ou \u00e0 rela\u00e7\u00e3o de uma sociedade concreta com esse mundo mais amplo. Mais do que transpor uma metodologia historiogr\u00e1fica para uma publica\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea, interessa conservar uma intui\u00e7\u00e3o simples e f\u00e9rtil: perde-se capacidade explicativa quando processos constru\u00eddos mediante rela\u00e7\u00f5es entre territ\u00f3rios diferentes s\u00e3o estudados como se cada um tivesse desenvolvido sua hist\u00f3ria em separado.<\/p>\n<p>Europa, Am\u00e9rica e \u00c1frica formam o \u00e2mbito hist\u00f3rico do qual nasce essa perspectiva atl\u00e2ntica. N\u00e3o constituem um bloco homog\u00eaneo e nunca mantiveram entre si rela\u00e7\u00f5es sim\u00e9tricas. Essa diferen\u00e7a faz parte do interesse de observ\u00e1-las em conjunto. As decis\u00f5es regulat\u00f3rias europeias condicionam a atividade de empresas americanas e africanas; a pol\u00edtica estadunidense repercute sobre equil\u00edbrios europeus e latino-americanos; as transforma\u00e7\u00f5es demogr\u00e1ficas e econ\u00f4micas africanas ter\u00e3o efeitos crescentes em suas rela\u00e7\u00f5es com a Europa e a Am\u00e9rica; a Am\u00e9rica Latina redefine v\u00ednculos tradicionais enquanto amplia suas rela\u00e7\u00f5es com a \u00c1sia, a \u00c1frica e outros espa\u00e7os econ\u00f4micos.<\/p>\n<p>Dentro desse quadro, a dimens\u00e3o ibero-americana tem um peso pr\u00f3prio. Espanha, Portugal e Am\u00e9rica Latina conservam, apesar de suas diferen\u00e7as, uma trama hist\u00f3rica de l\u00ednguas, institui\u00e7\u00f5es, tradi\u00e7\u00f5es jur\u00eddicas, migra\u00e7\u00f5es e rela\u00e7\u00f5es culturais que segue produzindo espa\u00e7os de conversa comuns. Essa trama n\u00e3o elimina trajet\u00f3rias nacionais distintas nem as tens\u00f5es de uma hist\u00f3ria compartilhada; permite, precisamente, compreender por que determinadas discuss\u00f5es jur\u00eddicas, pol\u00edticas, econ\u00f4micas ou culturais circulam com particular facilidade entre sociedades separadas por milhares de quil\u00f4metros.<\/p>\n<p>As Can\u00e1rias ocupam uma posi\u00e7\u00e3o singular dentro dessa geografia. Seu pertencimento pol\u00edtico e jur\u00eddico \u00e0 Europa, sua proximidade da \u00c1frica e a profundidade de suas rela\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas com a Am\u00e9rica permitem observar de um mesmo lugar realidades que com frequ\u00eancia s\u00e3o contempladas a partir de mapas distintos. N\u00e3o \u00e9 preciso atribuir \u00e0s ilhas uma centralidade artificial. Basta advertir que a ideia de periferia muda conforme a escala a partir da qual se constr\u00f3i o mapa. Em uma representa\u00e7\u00e3o estritamente continental da Europa, as Can\u00e1rias aparecem em um de seus extremos; em uma perspectiva atl\u00e2ntica, essa condi\u00e7\u00e3o perif\u00e9rica se relativiza e ganham maior import\u00e2ncia suas conex\u00f5es com outros espa\u00e7os. Mudar o ponto de observa\u00e7\u00e3o n\u00e3o altera os fatos, mas pode mostrar rela\u00e7\u00f5es que uma representa\u00e7\u00e3o anterior deixava em segundo plano.<\/p>\n<p>A perspectiva atl\u00e2ntica tampouco converte o Atl\u00e2ntico em um horizonte fechado. Seria imposs\u00edvel compreender hoje a Europa, a Am\u00e9rica ou a \u00c1frica ignorando o peso econ\u00f4mico e tecnol\u00f3gico da \u00c1sia, a crescente centralidade do Indo-Pac\u00edfico na competi\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica internacional ou a influ\u00eancia do Oriente M\u00e9dio sobre energia, seguran\u00e7a e com\u00e9rcio. China e \u00cdndia participam de decis\u00f5es industriais, financeiras e tecnol\u00f3gicas que repercutem diretamente nas tr\u00eas margens atl\u00e2nticas. Uma altera\u00e7\u00e3o em rotas mar\u00edtimas distantes do nosso espa\u00e7o pode modificar pre\u00e7os, suprimentos e estrat\u00e9gias empresariais em quest\u00e3o de dias. Ter um lugar de onde olhar n\u00e3o obriga a reduzir o mundo \u00e0quilo que fica mais perto.<\/p>\n<p>A condi\u00e7\u00e3o de tribuna acrescenta uma dimens\u00e3o p\u00fablica a essa perspectiva. Uma ideia muda quando \u00e9 publicada, encontra leitores e entra em rela\u00e7\u00e3o com outras interpreta\u00e7\u00f5es do mesmo mundo. Sai do \u00e2mbito privado ou especializado e se exp\u00f5e \u00e0 leitura, \u00e0 concord\u00e2ncia e \u00e0 discord\u00e2ncia. Essa tradi\u00e7\u00e3o acompanhou por muito tempo as revistas de pensamento, cultura, Direito e pol\u00edtica que tornaram poss\u00edvel que ideias nascidas em universidades, institui\u00e7\u00f5es, profiss\u00f5es ou c\u00edrculos intelectuais alcan\u00e7assem leitores situados fora desses \u00e2mbitos.<\/p>\n<p>O ambiente contempor\u00e2neo transformou radicalmente as condi\u00e7\u00f5es dessa conversa. Um texto escrito em Lima pode ser lido de imediato em Madri, Bogot\u00e1, Buenos Aires, Dublin, Cidade do Panam\u00e1, Tenerife ou em qualquer outro lugar. Uma quest\u00e3o formulada a partir da \u00c1frica pode entrar em di\u00e1logo com experi\u00eancias americanas ou europeias sem os tempos e as barreiras materiais que durante s\u00e9culos condicionaram a circula\u00e7\u00e3o das ideias. A internacionalidade deixa assim de ser apenas uma declara\u00e7\u00e3o de inten\u00e7\u00f5es e pode tornar-se uma pr\u00e1tica cotidiana.<\/p>\n<p>A Tribuna Atl\u00e1ntica situa-se nesse espa\u00e7o entre a produ\u00e7\u00e3o especializada de conhecimento e a conversa p\u00fablica. N\u00e3o pretende substituir a pesquisa acad\u00eamica nem competir com a informa\u00e7\u00e3o di\u00e1ria. Seu lugar \u00e9 outro: ali onde o conhecimento, a experi\u00eancia profissional e a reflex\u00e3o podem encontrar-se sem ficar encerrados em uma disciplina, uma institui\u00e7\u00e3o ou uma fronteira.<\/p>\n<p>A unidade de uma publica\u00e7\u00e3o assim dificilmente poderia provir de uma lista fechada de mat\u00e9rias. Est\u00e1 na rela\u00e7\u00e3o que estabelece entre elas e na vontade de contemplar o presente a partir de escalas diferentes. H\u00e1 quest\u00f5es que exigem a precis\u00e3o do Direito, outras a perspectiva da hist\u00f3ria, da economia, da ci\u00eancia ou da filosofia, e muitas requerem v\u00e1rios desses olhares ao mesmo tempo. O prop\u00f3sito n\u00e3o \u00e9 apagar suas diferen\u00e7as, mas permitir que dialoguem ali onde a pr\u00f3pria realidade j\u00e1 as p\u00f4s em contato.<\/p>\n<p>A Tribuna Atl\u00e1ntica parte de uma experi\u00eancia hist\u00f3rica formada ao longo de s\u00e9culos entre Europa, Am\u00e9rica e \u00c1frica, mas n\u00e3o converte essa proced\u00eancia em um limite. Ocupa-se do presente sem reduzi-lo \u00e0 atualidade e recorre ao passado quando isso \u00e9 necess\u00e1rio para compreend\u00ea-lo. Sua perspectiva \u00e9 atl\u00e2ntica porque reconhece uma hist\u00f3ria, uma geografia e uma rede de rela\u00e7\u00f5es a partir da qual escolheu olhar, e \u00e9 contempor\u00e2nea porque aquilo que lhe interessa, em \u00faltima inst\u00e2ncia, \u00e9 compreender a \u00e9poca em que vivemos sem dar por certo que suas pr\u00f3prias categorias bastam para explic\u00e1-la.<\/p>\n<p>Pensamento contempor\u00e2neo n\u00e3o \u00e9, portanto, uma doutrina que queiramos formular, mas o trabalho intelectual que decidimos empreender.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pensamento contempor\u00e2neo A Tribuna Atl\u00e1ntica \u00e9 uma publica\u00e7\u00e3o internacional de pensamento contempor\u00e2neo. 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