Tribuna Atlántica
Pensamento contemporâneo
A Tribuna Atlántica é uma publicação internacional de pensamento contemporâneo. Seu nome expressa um modo de se situar diante da realidade, mais do que uma especialização temática. Interessa-nos o tempo em que vivemos, mas não apenas aquilo que acaba de acontecer. A atualidade oferece fatos, decisões, conflitos, inovações e mudanças políticas; compreendê-los exige relacioná-los com processos iniciados antes e cujas consequências, muitas vezes, ainda desconhecemos.
Pensar o presente carrega a dificuldade de fazer-se por dentro. Não conhecemos o desfecho dos processos que estamos vivendo, nem podemos desprender-nos por completo das categorias, experiências e preocupações de nossa própria época. Ortega y Gasset formulou essa relação entre vida e circunstância em Meditaciones del Quijote, publicada em 1914. Sua reflexão sobre o eu e a circunstância tornou-se quase um aforismo, embora o que aqui interesse seja algo mais amplo: pensamos a partir de uma situação histórica concreta, condicionados por ela e, ao mesmo tempo, capazes de submetê-la a exame. A circunstância não fornece por si só uma explicação do mundo, mas determina o lugar de onde começamos a interrogá-lo.
Hoje essa circunstância apresenta uma complexidade particular. Muitas das categorias com que organizamos a realidade continuam sendo necessárias, ainda que os fenômenos que pretendemos estudar atravessem seus limites com crescente facilidade. O Estado mantém sua centralidade política e jurídica, enquanto empresas, capitais, serviços digitais, cadeias de suprimentos e decisões econômicas desenvolvem boa parte de sua atividade em espaços que extravasam uma única jurisdição. As fronteiras continuam produzindo consequências muito reais, mas já não delimitam sozinhas os processos capazes de transformar uma sociedade.
O Direito há décadas se defronta com esse problema. Quando Philip C. Jessup proferiu em Yale suas Storrs Lectures, em 1956, publicadas naquele mesmo ano como Transnational Law, partiu de situações cuja compreensão obrigava a cruzar divisões tradicionais do conhecimento jurídico. Direito interno, Direito internacional público e Direito internacional privado podiam concorrer sobre uma mesma relação. Jessup escrevia em outro contexto e antes da revolução digital, mas apontou uma dificuldade que desde então se tornou muito mais visível: algumas realidades se compreendem pior quando o método obriga a fragmentá-las antes de estudá-las.
A mesma dificuldade aparece hoje fora do Direito. Uma inovação tecnológica pode modificar relações de trabalho, estruturas empresariais, formas de criação e critérios de responsabilidade. Uma decisão comercial adquire relevância estratégica quando afeta matérias-primas, cadeias de suprimentos ou autonomia industrial. Uma política energética produz efeitos econômicos, sociais e diplomáticos ao mesmo tempo. A mobilidade humana admite leituras demográficas, jurídicas, econômicas, culturais e políticas que se complementam sem se confundir. A especialização continua sendo imprescindível; simplesmente, a realidade não é obrigada a respeitar nossas especialidades.
A amplitude temática da Tribuna Atlántica decorre dessa evidência. Direito, economia, geopolítica, tecnologia, empresa, ciência, história, cultura, filosofia ou instituições aparecem em suas páginas quando alguma dessas perspectivas permite compreender melhor a questão examinada. As disciplinas conservam sua identidade, mas os problemas atravessam com frequência várias delas.
Fernand Braudel abordou essa dupla questão, a relação entre disciplinas e a necessidade de trabalhar com escalas temporais distintas, em “Histoire et Sciences sociales: La longue durée”, publicado em Annales em 1958. Seu nome ficou especialmente associado à longa duração, embora aquele texto contivesse também uma reflexão sobre o contato inevitável entre as ciências sociais quando seus objetos de estudo as conduziam a terrenos comuns. Braudel advertia, ademais, sobre os limites de uma história dominada pelo acontecimento imediato. A observação conserva interesse em uma cultura informativa capaz de registrar um fato quase no mesmo instante em que ele ocorre, mas não necessariamente de compreender com igual rapidez o seu alcance.
Uma sentença que parece decisiva no dia em que é proferida pode acabar sendo uma peça menor de uma evolução jurisprudencial muito mais ampla. Uma eleição interpretada como ruptura pode revelar, com o tempo, continuidades que então mal se percebiam. Uma tecnologia apresentada como inédita pode reabrir perguntas sobre liberdade, poder, responsabilidade ou condição humana que contam com uma tradição intelectual de séculos. Pensar contemporaneamente exige reconhecer aquilo que nossa época tem verdadeiramente de novo sem transformar o presente em um ponto zero da história.
O adjetivo Atlántica responde à mesma vontade de observar relações, mais do que compartimentos isolados. O Atlântico foi durante séculos um dos grandes espaços de comunicação entre a Europa, a América e a África. Por suas rotas circularam pessoas, mercadorias, capitais, conhecimentos, instituições, línguas, religiões, modelos jurídicos e ideias políticas. Dessas relações surgiram sociedades novas e transformações decisivas, mas também sistemas de dominação, colonialismo, escravidão, guerras e desigualdades cujas consequências fazem parte da mesma história.
A historiografia acabou convertendo essa realidade em um campo de estudo próprio. Bernard Bailyn sistematizou boa parte dessa perspectiva em Atlantic History: Concept and Contours, publicado em 2005. David Armitage havia proposto poucos anos antes, em “Three Concepts of Atlantic History”, uma distinção entre formas diversas de estudar o espaço atlântico, conforme se atendesse ao conjunto de suas circulações, às conexões entre suas partes ou à relação de uma sociedade concreta com esse mundo mais amplo. Mais do que transpor uma metodologia historiográfica para uma publicação contemporânea, interessa conservar uma intuição simples e fértil: perde-se capacidade explicativa quando processos construídos mediante relações entre territórios diferentes são estudados como se cada um tivesse desenvolvido sua história em separado.
Europa, América e África formam o âmbito histórico do qual nasce essa perspectiva atlântica. Não constituem um bloco homogêneo e nunca mantiveram entre si relações simétricas. Essa diferença faz parte do interesse de observá-las em conjunto. As decisões regulatórias europeias condicionam a atividade de empresas americanas e africanas; a política estadunidense repercute sobre equilíbrios europeus e latino-americanos; as transformações demográficas e econômicas africanas terão efeitos crescentes em suas relações com a Europa e a América; a América Latina redefine vínculos tradicionais enquanto amplia suas relações com a Ásia, a África e outros espaços econômicos.
Dentro desse quadro, a dimensão ibero-americana tem um peso próprio. Espanha, Portugal e América Latina conservam, apesar de suas diferenças, uma trama histórica de línguas, instituições, tradições jurídicas, migrações e relações culturais que segue produzindo espaços de conversa comuns. Essa trama não elimina trajetórias nacionais distintas nem as tensões de uma história compartilhada; permite, precisamente, compreender por que determinadas discussões jurídicas, políticas, econômicas ou culturais circulam com particular facilidade entre sociedades separadas por milhares de quilômetros.
As Canárias ocupam uma posição singular dentro dessa geografia. Seu pertencimento político e jurídico à Europa, sua proximidade da África e a profundidade de suas relações históricas com a América permitem observar de um mesmo lugar realidades que com frequência são contempladas a partir de mapas distintos. Não é preciso atribuir às ilhas uma centralidade artificial. Basta advertir que a ideia de periferia muda conforme a escala a partir da qual se constrói o mapa. Em uma representação estritamente continental da Europa, as Canárias aparecem em um de seus extremos; em uma perspectiva atlântica, essa condição periférica se relativiza e ganham maior importância suas conexões com outros espaços. Mudar o ponto de observação não altera os fatos, mas pode mostrar relações que uma representação anterior deixava em segundo plano.
A perspectiva atlântica tampouco converte o Atlântico em um horizonte fechado. Seria impossível compreender hoje a Europa, a América ou a África ignorando o peso econômico e tecnológico da Ásia, a crescente centralidade do Indo-Pacífico na competição estratégica internacional ou a influência do Oriente Médio sobre energia, segurança e comércio. China e Índia participam de decisões industriais, financeiras e tecnológicas que repercutem diretamente nas três margens atlânticas. Uma alteração em rotas marítimas distantes do nosso espaço pode modificar preços, suprimentos e estratégias empresariais em questão de dias. Ter um lugar de onde olhar não obriga a reduzir o mundo àquilo que fica mais perto.
A condição de tribuna acrescenta uma dimensão pública a essa perspectiva. Uma ideia muda quando é publicada, encontra leitores e entra em relação com outras interpretações do mesmo mundo. Sai do âmbito privado ou especializado e se expõe à leitura, à concordância e à discordância. Essa tradição acompanhou por muito tempo as revistas de pensamento, cultura, Direito e política que tornaram possível que ideias nascidas em universidades, instituições, profissões ou círculos intelectuais alcançassem leitores situados fora desses âmbitos.
O ambiente contemporâneo transformou radicalmente as condições dessa conversa. Um texto escrito em Lima pode ser lido de imediato em Madri, Bogotá, Buenos Aires, Dublin, Cidade do Panamá, Tenerife ou em qualquer outro lugar. Uma questão formulada a partir da África pode entrar em diálogo com experiências americanas ou europeias sem os tempos e as barreiras materiais que durante séculos condicionaram a circulação das ideias. A internacionalidade deixa assim de ser apenas uma declaração de intenções e pode tornar-se uma prática cotidiana.
A Tribuna Atlántica situa-se nesse espaço entre a produção especializada de conhecimento e a conversa pública. Não pretende substituir a pesquisa acadêmica nem competir com a informação diária. Seu lugar é outro: ali onde o conhecimento, a experiência profissional e a reflexão podem encontrar-se sem ficar encerrados em uma disciplina, uma instituição ou uma fronteira.
A unidade de uma publicação assim dificilmente poderia provir de uma lista fechada de matérias. Está na relação que estabelece entre elas e na vontade de contemplar o presente a partir de escalas diferentes. Há questões que exigem a precisão do Direito, outras a perspectiva da história, da economia, da ciência ou da filosofia, e muitas requerem vários desses olhares ao mesmo tempo. O propósito não é apagar suas diferenças, mas permitir que dialoguem ali onde a própria realidade já as pôs em contato.
A Tribuna Atlántica parte de uma experiência histórica formada ao longo de séculos entre Europa, América e África, mas não converte essa procedência em um limite. Ocupa-se do presente sem reduzi-lo à atualidade e recorre ao passado quando isso é necessário para compreendê-lo. Sua perspectiva é atlântica porque reconhece uma história, uma geografia e uma rede de relações a partir da qual escolheu olhar, e é contemporânea porque aquilo que lhe interessa, em última instância, é compreender a época em que vivemos sem dar por certo que suas próprias categorias bastam para explicá-la.
Pensamento contemporâneo não é, portanto, uma doutrina que queiramos formular, mas o trabalho intelectual que decidimos empreender.
